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Monte Trigo, 5 anos na rota do Sol
28 de Abril de 2017
Monte Trigo, 5 anos na rota do Sol
Janina Cabral

Caros Leitores,

Ao longo deste ano a ALER irá convidar os responsáveis pelos estudos de caso de sucesso de mini-redes a operar nos países lusófonos para apresentarem os seus projectos, que serão posteriormente compilados na versão portuguesa do Mini-Grid Policy Toolkit (MGPT). O nosso primeiro convite foi endereçado à Águas de Ponta Preta (APP), em Cabo Verde, para apresentar o projecto de Monte Trigo que comemorou este ano o seu quinto aniversário de actividade. Este é o único caso de estudo já incluido na versão actual do MGPT, e que está disponível aqui.



Monte Trigo, 100% alimentada com energia solar, representa e confirma a pertinência da aposta do país em Energias Renováveis face as particularidades de Cabo Verde. Um país independente há 42 anos, que integra especificidades singulares que ao mesmo tempo, potenciam oportunidades como também ditam vulnerabilidades estruturais, por exemplo a insularidade, pequenez, isolamento, descontinuidade e fragmentação territorial, clima tropical seco e multiplicidade de ecossistemas (montanha, deserto).


Estas especificidades condicionam Cabo Verde a um mercado pequeno e fragmentário completamente dependente das importações e das imposições dos mercados globais e a uma necessidade incontornável de multiplicação de serviços e infra-estruturas (ex. cada ilha necessita de central eléctrica etc.) e de recursos recorrentes. Este cenário interpela ao país a soluções locais e estratégias nacionais de forma a fazer frente a um sector energético exposto a choques externos, ciclos económicos imprevisíveis e a forte dependência dos mercados internacionais. Esta consciencialização tem sido manifestada e colocada no centro das atenções do país, através de distintos instrumentos políticos e estratégicos.


A segurança energética, a sustentabilidade do sistema de produção e distribuição de energia e a eficiência energética continuam sendo os principais desafios do sector energético em Cabo Verde. A utilização e o aproveitamento dos recursos endógenos renováveis para produção de energia foi tida em conta pelo Governo de Cabo Verde como uma das principais apostas para enfrentar as problemáticas de desenvolvimento e crescimento económico, e é assumido como alternativa e solução no âmbito dos seus instrumentos estratégico-políticos e de planificação. O aproveitamento e valorização destes recursos constituem hoje uma das principais estratégias para a redução da dependência energética, do défice externo e da não subordinação a volatilidade dos mercados externos.


Monte Trigo é uma simbólica contribuição a este processo transitório da reforma do sector energético, já definido a nível nacional. A Central Fotovoltaica de Monte Trigo celebrou no passado mês de Fevereiro deste ano, o quinto ano de funcionamento de forma ininterrupta, contínua e segura. No período 2012-2017, o balanço da opção pela produção de electricidade de origem renovável na aldeia é globalmente positivo, fruto do enfoque nas tecnologias adaptadas às especificidades locais. Durante este período a gestão da Central fotovoltaica e Micro-rede Monte trigo, foi gerida pela APP, após o fecho do projecto SESAM-ER (Serviço Energético Sustentável para zonas Isoladas mediante Micro redes com Energia Renovável na Ilha de Santo Antão).

 

Monte Trigo é uma das localidades de Cabo Verde com maior nível de isolamento. O isolamento tem impacto directo no contexto socioeconómico da localidade, fortemente marcada pela pobreza e insegurança alimentar, sobretudo motivado pelo pouco acesso aos serviços básicos, (água, saúde, educação, transportes, infra-estruturas) emprego e mercados de bens.

 

Com uma população de 274 habitantes (censo 2010), a localidade enfrenta vários desafios, condicionados pelo acesso insuficiente aos serviços básicos e pela inexistência de mecanismos públicos de mobilidade e acessibilidade a outras localidades. A principal actividade económica, tendo em conta o contexto geo-climático, é a pesca, cujo desenvolvimento económico está condicionando ao mercado de São Vicente.

Após cinco anos são evidentes os impactos e efeito contagiante provocado pelo acesso aos serviços energéticos 24/24 horas:

  • Melhoria geral da qualidade de vida da comunidade de Monte Trigo (em especial no âmbito da segurança alimentar e Nutricional, gestão do tempo, previsibilidade e planificação diária familiar e comunitária, diminuição do nível de isolamento da comunidade e redução dos riscos quotidianos);
  • Melhoria da principal actividade económica, as Pescas, no que diz respeito ao acesso ao gelo a nível local, e da gestão do stock e conservação de peixes (evitando desperdício dos recursos das pescas);
  • Melhoria das condições de segurança, com a iluminação da praia facilitando o acesso aos pescadores na ida e volta das pescas;
  • Acesso contínuo e ininterrupto às redes de comunicação como TV e rede de internet e serviço móvel de telefone (informação e entretenimento);
  • Maior afluência de turistas e visitantes e integração da localidade no circuito Trekking;
  • Melhoria do ambiente de negócios, aparecimento de novas actividades económicas como o alojamento devido ao aparecimento do turismo rural, no âmbito das comunicações e melhoria e expansão do comércio local;


Estes impactos são evidências de 176 MWh de energia solar produzida, 158 MWh de energia consumida, 51 488 litros de gasóleos poupados e 154 toneladas de gás CO2 evitados nestes 5 anos de actividade, que a ALER tem tido a atenção de divulgar como caso paradigmático no actual cenário de transição energética. 

Janina Cabral

Responsável de EERR da APP

*Aceda à análise do funcionamento e resultados do projecto Monte Trigo ao longo destes cinco anos aqui.