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O Futuro começa quando se toma uma decisão. O Futuro pode ser já hoje…
21 de Dezembro de 2018
O Futuro começa quando se toma uma decisão. O Futuro pode ser já hoje…
António Alves de Carvalho

Olhar e pensar a realidade de um determinado País, pode levar-nos a várias conclusões com fundamento nas condicionantes e variáveis económicas, sociais e políticas encontradas. É desejável, sempre que possível, que tais condicionantes, numa óptica realista e pragmática, sejam encarados como um desafio ao invés de uma dificuldade. Neste contexto, olhar a Guiné-Bissau é um desafio constante, que põe à prova e revela a capacidade de resposta, compromisso, força e determinação de cada um. Refiro-me, em concreto, ao espírito de risco e de empreendedorismo do empresário ao abordar um novo mercado que, talvez, por circunstâncias diversas, pudesse não estar no horizonte imediato dos seus objetivos de investimento ou de internacionalização da sua empresa.

Vem esta introdução a propósito da recente realização, na cidade de Bissau, em dezembro de 2018, da Conferência Internacional “Energia Sustentável na Guiné-Bissau”, em que me foi dada a honra de participar enquanto Embaixador de Portugal  e que se revelou um exemplo lapidar, do que é um exercício de “olhar” um País, na perspetiva de um sector determinado, de identificar dificuldades ou obstáculos e de, neles ver e detectar desafios e potencialidades de investimentos, numa visão estratégica e moderna, apoiada na inovação e no conhecimento, ao serviço do desenvolvimento e do bem estar social, da criação de riqueza e da formação e criação de emprego.

Constata-se, contudo, uma pluralidade e diversidade de níveis de desenvolvimento nas diferentes regiões do Globo. Ocorre com efeito constatar a existência de “linhas” ou “fronteiras” que separam Regiões/Países ou Continentes em que os índices de desenvolvimento humano e socioeconómico se encontram em patamares mais elevados em contraposição a conjunturas mais ou muito mais desfavoráveis dominadas por debilidades e fragilidades endémicas e estruturais. No plano das fontes de energia renovável, em que nos colocamos e que concentra a nossa atenção, estas “linhas” não são imaginárias; são, pelo contrário bem tangíveis e de fácil observação. Por exemplo, o número de horas de sol numa base anual ou as condições climáticas que favorecem e aconselham a utilização da energia do vento constituem vias imediatas de perceção do potencial existente no aproveitamento de condições naturais preferivelmente com base em parcerias estratégicas entre agentes e instituições privados e governos locais.

A Guiné-Bissau encontra-se, não só, na faixa de países com maior número de horas de sol, bem como se situa numa posição geográfica privilegiada, detendo um activo estratégico determinante constituído pela sua abertura ao Atlântico. Possui riquezas e recursos naturais muito expressivos e, naturalmente, abre-se ao turismo de qualidade. Contudo, apresenta ainda reduzidos níveis de desenvolvimento. Pensar o país sem uma estratégia energética seria cercear dramática e gravemente o potencial do seu desenvolvimento, mas, também, e na perspetiva de Portugal, perder oportunidades de negócio e investimento para as empresas e grupos portugueses.

Neste quadro, Portugal exibe capacidade, experiência, “know how” e níveis de internacionalização que o coloca numa posição privilegiada para se implantar e procurar ter uma posição dominante no mercado das energias renováveis na RGB. Se não o fizermos outros ocuparão o nosso lugar.

Afigura-se-me, enquanto Embaixador na Guiné-Bissau, que devemos encarar e “equacionar” o mercado sectorial das energias renováveis com realismo e pragmatismo, garantindo o acesso a financiamentos seguros, respaldados e em coordenação com instituições internacionais e em parceria e consonância com as entidades públicas guineenses que o tutelam. A pensar, naturalmente, também no retorno do investimento efectuado e no acesso aos mercados sub-regionais.  

A conferência Internacional “Energia Sustentável na Guiné-Bissau”, sob a inspiração e contributo determinantes da ALER, trouxe ao país uma nova perspectiva e constituiu uma lufada de ar fresco, que se saúda, na discussão e na reflexão sobre políticas a adoptar no domínio das energias renováveis na RGB. E porque projectos não existem sem financiamento, também neste campo a Guiné-Bissau disporá de condições únicas, com possibilidade de vir a usufruir de cerca de 700 milhões de USD através de fontes e organismos internacionais.

Porque o futuro acontece quando tomamos decisões, não vamos deixar passar a oportunidade de criar condições para um futuro melhor na Guiné-Bissau. Espero que se criem as motivações e estímulos necessários para que tais decisões sejam, em modo e momento próprios, tomadas e assumidas pelas empresas portuguesas.

 

António Alves de Carvalho,

Embaixador de Portugal na Guiné-Bissau